Considerando que na atualidade muitas cidades vêm pautando sua agenda cultural em torno de grandes festas populares, creio ser oportuno refletirmos quanto a atitude dos espíritas face a esse fenômeno sociológico que, a rigor, não é fato novo, posto que na Roma imperial dedicava-se mais de cem e vinte dias do ano só para festas. Era preciso entreter desocupados e revoltosos com espetáculos bem primitivos regados a bastante vinho, controlar-lhes a tensão à base do panis et circensis (“pão e circo”). Não que os espíritas devam ser uns chatos, sisudos, anti-sociais, mas é necessário que eles façam valer na conduta social o conhecimento diferenciado que professam, isto é, a leitura do mundo e de tudo que nele ocorre, considerando a interferência dos agentes invisíveis e significado da convicção segundo a qual os pensamentos, intenções, palavras e ações ações têm reflexo na vida futura.
É oportuno lembrar que Jesus respirou numa sociedade plena de festividades. O Mestre deu sinais do início do seu messianato na festas das bodas de Caná e foi crucificado durante a festa da Páscoa. Nem por isso tomemos Jesus como patrocinador de bebedeiras. Ora, as festas na cultura em que o Cristo viveu, como na quase totalidade das sociedades antigas, tinham a marca do sagrado, isto é, eram celebrações em que toda a comunidade se engajava, havia uma integração dos indivíduos e, por esse e outros fatores, eram capazes de dar sentido àquelas vidas sofridas. Em se tratando de festas no mundo clássico, até mesmo entre os gregos as festas dionisíacas que celebravam a presença do deus Baco entre os mortais não consistiam tão somente em beber e beber vinho, mas eram um rico festival em que a comunidade, durante uma semana, participava de procissões, assistia à várias tragédias e comédias, etc. Nada se parece com a dessacralização das atuais festas de rua que atendem mais uma pauta econômica imposta, sobretudo, pelos espertos fabricantes de cerveja e quejandos, ensadecidos pelo lucro advindo do consumo de suas drogas lícitas, indiferentes a crescimento do alcoolismo e os sofrimento por ele provocado entre as pessoas. São festanças alheias por completo a regulação da natureza, já que as festas comunitárias, via de regra, acontecem após e por causa da boa safra. A fartura gera a alegria, portanto, é preciso celebrar, compartilhar o júbilo de todos e com todos, fortalecendo, assim, a delicada teia social. No caso do Nordeste, a safra abundante do milho e do feijão desencadeia a alegria em escala coletiva criando, assim, as condições das celebrações juninas, isto é, as três noites dedicadas uma a S. Antônio, outra a S. João Batista e , por último, outra a S. Pedro. É preciso que face aos apelos da mídia muito astuta que apresentam as festas populares como um momento sem fim de prazer, o espírita consiga averiguar se as mesmas são compatíveis com a alegria que cabe a um cristão ou se tais comemorações douram em linguagem e imagem sedutoras os velhos vícios a que nos aferramos em reencarnações passadas e dos quais ainda nos esforçamos para se libertar. Que a mente espírita seja suficientemente crítica e abarque uma visão sistêmica das propaladas festas, feitas sob encomendas para distraírem as massas, adormecer consciências. Isto quer dizer que precisamos aplicar a sentença evangélica enunciada por Jesus “Pelos frutos se conhece as árvores” . Traduzindo num mundo prático: qual o psiquismo da festa, que Espíritos eventualmente dela participam, se há um apelo a alcoolismo e outros vícios, que tipo de música (arranjos selvagens) e mensagem trazem as letras (duplo sentido, palavrões, etc), se estas são executadas em volume ensurdecedor, se danças são sensualistas ou acalmam o ser, dentre outros critérios. Para os que desejam produzirem sua própria festa em casa, sugiro a leitura de “ Festas no lar”, capítulo da obra Vereda Familiar do Espírito Thereza de Brito, psicografia de J. Raul Teixeira. Por fim, coloco em seguida algumas pérolas de sabedoria dos Espíritos Joanna de Angelis (psicografia Divaldo Franco) e André Luiz (psicografia Chico Xavier) para facilitar o discernimento de cada leitor sobre a questão. * Os ingredientes que excitam a mente, o corpo, a emoção, devem ser evitados por ti. As melodias suaves, na boa música, harmonizam, enquanto outras, programadas para a luxúria e a violência, desassossegam, alterando o ritmo nervoso. ( Joanna de ngelis, Vida Feliz, LXVII, p. 80 ) * Qualquer vício escraviza e mata. Não te vincules aos chamados "aperitivos sociais", que dão margem a lamentáveis processos de alcoolismo, nem adotes a posição de fumante, por parecer-te uma postura distinta e de elegância, mas que conduz às algemas do tabagismo assassino. Jogo, sexo, gula, anedotário servil, para citar somente alguns ( Joanna de Ângelis, Vida Feliz, XXX)
Seleciona as tuas companhias. Os maus companheiros tornam-se presenças inconvenientes na tua vida e perturbam-te a marcha. Ninguém é tão independente e pleno que não corra o perigo de contaminar-se, com aqueles que estagiam e se comprazem na delinqüência ou na insensatez viciosa. Sê gentil com os maus e estúrdios, porém, não te imiscuas com eles, seus comportamento, suas atividades e filosofia de vida. (Joanna de Ângelis, Vida Feliz, LXXXIV) * Não coloques as tuas aspirações nos entretenimentos, viagens, festas e folguedos... Caso te surjam as oportunidades para gozá-los, muito bem, aproveita e constatarás que estes prazeres passam como outras satisfações quaisquer, deixando-te ansioso por novas ocasiões de fruí-los, e assim, incessantemente. Há quem sacrifique o futuro, utilizando-se de empréstimos e prestações com juros extorsivos para viver estas ilusões, que retornam como pesadelos, no momento dos resgates das dívidas. Busca os prazeres simples e duradouros, aqueles que não te perturbam o presente nem te escravizam no futuro. (Joanna de Ângelis, Vida Feliz, XCII) * Reserva-te o direito de permanecer indiferente às provocações de qualquer natureza. Numa época de insensatez como esta, o mal anda em liberdade, seduzindo os incautos. Aqui, é a ira dos outros que te agride. Ali, está o sexo sem freio que te sensibiliza. Acolá, eis a ambição que te desperta o interesse. Próximo se encontra o vício, enredando vítimas. Em torno de ti, a diversão perturbadora campeia. Por toda parte, a vitória do crime e da dissolução dos costumes multiplica os seus tentáculos qual polvo cruel e dominador. Olha essas facilidades como sendo a estrada de espinhos venenosos que a grama verde e agradável esconde no chão, e não te permitas pôr-lhe os pés, evitando-te os acidentes de efeitos danosos. ( Joanna de Ângelis, Vida Feliz, CLIII) * Abster-se do mergulho inconsciente nas atividades de caráter festivo, evitando, outrossim, o egoísmo doméstico que inspire a deserção do trabalho de ordem geral. André Luiz, Conduta Espírita, Cap. do jovem * Afastar-se dos lugares viciosos com discrição e prudência, sem crítica, nem desdém, somente relacionando-se com eles para emprestar-lhes colaboração fraterna a favor dos necessitados. O cristão sabe descer à furna do mal, socorrendo-lhe as vítimas Conduta Espírita, Cap. PERANTE AS FÓRMULAS SOCIAIS * “ Afastar-se de festas lamentáveis, como aquelas que assinalam a passagem do carnaval, inclusive as que se destaquem pelos excessos de gula, desregramento ou manifestações exteriores espetaculares. A verdadeira alegria não foge da temperança.” André Luiz, Conduta Espírita, Cap. perante a sociedade
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